Recomeço
Ontem despretensiosamente ouvi um programa na Rádio Bandeirantes chamado Papo Cabeça, onde estavam discutindo com alguns psicanalistas o recomeço. O tema foi eleito em função do anúncio do fim de carreira do Ronaldo. O programa foi bem interessante e falou sobre os bônus e ônus de um recomeço e de como é o processo psicológico paradoxal que ao mesmo tempo nos acomoda em uma situação e por outro lado nos instiga a desbravar o novo. Esse programa me fez refletir sobre os inúmeros começos e recomeços que já tive em minha vida.
As referências que temos de recomeços são as mudanças contrastantes de vida, retratadas em reportagens ou filmes, como um engenheiro frustrado que decide ser dono de restaurante japonês ou de um corretor da bolsa de valores infartado que abre uma pousada no litoral da Bahia e passa ter uma vida modesta e feliz em contato com a natureza. Mas a vida não é só composta desse tipo de recomeço, durante nossas vidas há inúmeros começos e finais de ciclos, e muitos não tão gloriosos mas totalmente necessários. Por vezes mudamos de emprego, por exemplo, não só por uma questão de arrojo, mas porque aquilo está comprometendo nossa auto-estima e conseqüentemente nossa saúde. Esses recomeços pouco "gloriosos" não são bem vistos em nossa sociedade, pois por vezes se da um ou diversos passos atrás, sentido inverso do parâmetro de sucesso e o sujeito acaba estigmatizado como fracassado ou descabeçado. Não somos educados para o recomeço, algo tão comum em nosso dia a dia. Na família ou nas escolas nos ensinam a vida sob uma perspectiva linear com verdades estáticas e quando por fim nos deparamos com um fim de ciclo e uma necessidade de mudança, pesam sobre nossos ombros o terrível assombro do imponderável e o sufocante comprometimento do triunfo.
Creio que também é injusto criticar o conservadorismo, há indivíduos cuja trajetória não exige tantas mudanças e se o risco do recomeço pode ser evitado sem que isso afete o bem estar da pessoa, vale a pena ser mais ortodoxo.
Enfim, não é papo de auto-ajuda, até porque a palavra recomeço não deve se limitar apenas a "quedas e ascensões", mas a processos naturais da vida cuja freqüência e intensidade variam muito de indivíduo para indivíduo. Devemos estar sempre preparado para os ciclos, para que não sejamos reféns de possibilidades do passado da busca incessante das certezas do futuro. Amigos vem e vão, idéias vem e vão e projetos fracassam, prosperam ou simplesmente acabam. Não mistifique o recomeço como essa coisa esplêndida e comovente como dos filmes americanos, essas histórias incríveis de superação, isso o torna algo intocável e nos desanima. Trate apenas como início necessário de mais um ciclo e se isso lhe tornará um Zé ou um Jerry Maguire – foda-se.
