terça-feira, 23 de novembro de 2010

O choro dos que correram pelos pontos corridos

"Se todas agissem pensando no bem estar coletivo, viveríamos em um país bem melhor" Essa frase é tão lógica quanto utópica. É claro que o mundo seria melhor se agíssemos todos dentro de um código de ética comum, mas acontece que ser individualista é da natureza humana, portanto dependendo do meio cada qual buscará o seu interesse ou o interesse dos seus. E não me venha falar que o inglês ou o sueco são diferentes, talvez devido aos acontecimentos que ocorreram em suas histórias construíram leis mais justas e funcionais, mas quando se coloca o cu de qualquer um na reta, cada qual vai tirar o seu da forma que convém. São poucos os ilustres personagens que colocaram sua vida em favor do coletivo. No geral o que vale é o que eu disse no texto anterior – ética só se cobra dos outros. Notem em seu dia-a-dia que as pessoas são complacentes com os desvios próprios ou do seu grupo e implacáveis com as falhas de terceiros. Discursos mudam conforme a maré: "O FHC é um neoliberal FDP que fica ajudando os banqueiros... malditoooo!"; "Na verdade essa ajuda do governo Lula aos bancos é uma medida estratégica para evitar a quebradeira da bolsa de valores e evitar a recessão".
Agora vamos à paixão nacional, ao futebol. Até 2003 vigorava no campeonato nacional o sistema mata- mata na decisão, ou seja, os 8 primeiros confrontavam-se entre si até sair o campeão na grande final. Nossos ilustres reformistas do futebol nacional bravavam: "essa é uma fórmula injusta atrasada, em toda Europa disputa-se os pontos corrido, aqui não beneficiamos o time de melhor campanha." Outra reclamação: "para o time que não se classifica, acaba o ano e isso desmotiva e esvazia os estádios." Por ironia do destino, o último campeão desse sistema foi o Santos em 2002, que com um time econômico e de garotos (Robinho, Diego, etc), classificou-se em 8º lugar e mostrou força de decisão, vencendo de forma honrosa o campeonato.
Pois bem, em 2003 iniciamos o sistema de pontos corridos, onde o Cruzeiro sagrou-se campeão. Para um povo acostumado com a emoção do mata a mata, foi um campeonato longo e chato, com times desinteressados nas últimas rodadas. A salvação do brasileiro foi justamente a supervalorização da Libertadores da América (mata-mata), que nas competições seguintes sustentaram a disputa por vagas até nas últimas rodadas. Ocorre que essa supervalorização foi tão acentuada que o título de "Campeão Nacional" acabou sendo muito preterido. Parece que hoje o grande objetivo dos times no país é chegar a Libertadores, portanto ser campeão nacional ou regional transformou-se num bônus. Os times encontraram em campeonatos antes pouco importantes como Copa do Brasil e Sulamericana (mata-mata) um modo mais rápido e lucrativo de chegar a Libertadores – fácil por ser poucas rodadas e lucrativo por atrair grande atenção dos torcedores. Um time campeão da Copa do Brasil no primeiro semestre tem pouco interesse no campeonato Brasileiro; um time que chega as finais da sulamericana, também deixa de lado o chato brasileirão; e um time que está na Libertadores abre mão do regional, e avançando as finais do início do campeonato brasileiro e se campeão for, do resto do campeonato nacional. O que temos hoje é um campeonato regional totalmente sem valor e um brasileirão longo, chato e desinteressante para times que não tem chance ou que por outros meios já chegaram a Libertadores.  
A discussão voltou a tona com a chance do Corinthians ser campeão de 2010, principalmente por tratar-se do ano de seu centenário. Coincidentemente o time depende de resultados de terceiros, sendo que esses terceiros são seus maiores rivais regionais: Palmeiras e São Paulo. Ambos os times não tem mais ambição no campeonato nacional, além de manter uma acirrada e histórica richa, o que da graça no futebol.  Muitos dos cronistas esportivos são corintianos e como tal, cobram dos rivais dedicação nesses jogos e estão antecipadamente indignados com a falta de ética no futebol nacional.
Thomas Rafael da rádio Transamérica diz que não existe justiça num campeonato de pontos corridos onde há times que não jogam com dedicação até as partidas finais. Que isso só da certo na Europa com pessoas evoluídas.  
Juca Kfouri da CBN e ESPN afirma estar claro que Palmeiras e São Paulo irão entregar seus jogos e que essas atitudes anti-desportivas são tradicionais do nosso esporte.
Amigos. Não me venham com esse papo fiado.  Esse é o campeonato que vocês queriam, não adianta agora querer que o Palmeiras coloque todos os titulares e dê o sangue para ajudar o Corinthians. Se estivéssemos disputando as emocionantes finais que tínhamos num passado recente essa discussão não existiria. Agora segura a bronca. O meu time Palmeiras, por exemplo, além de razões passionais, está disputando um campeonato que também leva a Libertadores e que está bem empolgante por sinal. É a chance de o time, com um elenco reduzido e limitado, salvar o ano e comemorar um campeonato, com a legitimidade de na final (se passar) poder enfrentar tradicionais times da América do Sul. Não há motivos para despender esforços contra o Fluminense. Ninguém reclama quando no Campeonato Paulista ou no início dos Brasileiro alguns times poupam seus titulares, porque reclamar agora? Outra coisa, não querer que um rival seja campeão não é falta de ética, falta de ética é comprar resultados, manipular tabela de campeonato, etc. Eu, por exemplo, não conheço nenhum torcedor do Fluminense, agora Corintianos são inúmeros e todos esses sabem que sou palmeirense, se o Corinthians for campeão vou agüentar tiração de sarro por eras, já se o Fluminense for no máximo e assistir no fantástico a comemoração do time. Não creio que jogadores profissionais entrem para entregar resultados (sem levar nada), mas a má vontade existe sim e é normal porra! Isso é futebol!
Se queremos um bem para o verdadeiro futebol nacional, clamemos pela volta do campeonato mata-mata! Não existe nada como a semana pré-jogo decisivo, os comentários, as especulações e a tensão. Nada substitui os confrontos decisivos, sem aquela de 3 pontos contra o Goiás valerem os mesmos contra o São Paulo. Justo é o time depender só dele e se mostrar mais competente em um confronto onde só um seguirá. Ressuscitemos a graça de nossos campeonatos que foram emplastificados em um padrão que não é o nosso. Se alguém tem mudar, que mudem os europeus e aqueles campeonatos nacionais chatos e longos com campeões previsíveis. Coincidência ou não, depois dos pontos corridos no Brasil, nossa seleção acumulou duas pipocadas feias em Copa do Mundo.
Adendos
Os europeus não são tão éticos assim. Recentemente houve na Itália um escândalo de manipulação de resultados envolvendo árbitros e jogadores. Na Inglaterra os principais times foram vendidos e alguns para mafiosos, que enxergam o futebol como um ótimo meio para lavar dinheiro.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Operação Pão e Circo

Quando pesquisas anunciam um índice de quase 80% de aprovação do governo, alguns (os outros 20%) devem se perguntar: Será que o Brasil transformou-se no Canadá e eu não to sabendo?

Não caro amigo, o Brasil não se transformou no Canadá, pelo contrário, ainda temos índices de desenvolvimento humano bem abaixo de países também em desenvolvimento, que acontece é que o povo brasileiro está se sentindo satisfeito e os louros são colhidos pelo presidente. E por que o povo está satisfeito sendo que ainda existem os mesmos problemas sociais? Essa é uma resposta um pouco complexa, pois a sensação muitas vezes não ta ligada ao que é de fato, mas ao que parece ser, sendo assim surpreendentemente o futebol acaba tendo seu papel, pois uma vez que o sujeito está contente com seu time ou sua seleção tem ele a impressão de que tudo mais também está bom. Para se ter uma idéia a Copa de 1978 realizada na Argentina foi marcada por uma série de escândalos de arbitragem e suspeitas de compra de resultados. Na época o país era governado pelo General Videla, representante de uma ditadura militar cruel que meteu o país em aventuras desastrosas como a Guerra das Malvinas. A conquista da Copa daquele ano foi essencial para manter a popularidade do regime na ocasião, pois o futebol tem a capacidade de mexer com a auto-estima de um povo. E a FIFA nessa história? É óbvio que colaborou, ou alguém acha que a associação não ganha nada com isso.

Ciente dessa verdade o governo brasileiro tem trabalhado de forma irretocável no que tange o continuísmo no poder, além do marketing eficiente ao supervalorizar obras e resultados econômicos, costurou alianças políticas dentro de instituições que cuidam do esporte nacional, dentre elas a CBF, que cuida do precioso futebol.

O Brasil conseguiu (sabe-se lá a que preço) eleger-se sede da Copa do Mundo de 2014, além das Olimpíadas de 2016. O povo brasileiro tem aparentemente um complexo terceiromundista - por assim ser taxado durante um bom tempo (hoje essa expressão está em desuso). Ser eleito, entre muitos, como país sede de um evento dessa magnitude desperta orgulho e sensação de "chegou nossa vez". Desde então a CBF conquistou um status estratosférico de poder. Podemos considerar que hoje, Ricardo Teixeira, presidente (dono) da CBF, é depois de Lula o homem mais assediado do país. Nessa dura batalha por um espaço "no saco" do homem, Andrés Sanches, presidente do Corinthians saiu na frente e já vem colhendo suculentos frutos. Apoiador do candidato de Ricardo Teixeira na eleição do clube dos 13, onde os demais clubes grandes colocaram-se contra, Andrés já foi posto de cara como chefe da delegação brasileira na Copa de 2010 na África do Sul, onde de lá mesmo já havia garantido – o Morumbi não sediará a Copa de 2014. Como poderia ele adiantar um parecer que a Fifa ainda estava analisando? Simples. Ele já sabia que quem vetara o Morumbi fora a própria CBF e todo jogo de cena, com as exigências rigorosas da Fifa, era só para legitimar a construção de um novo estádio – o Fielzão.

É fato que parte dinheiro da construção do estádio será de origem publica e tanto o Corinthians, a CBF e o governo sabem disso, tanto que o estádio foi escolhido como abertura da Copa antes mesmo de qualquer vistoria ou garantia financeira. A FIFA vai aprovar quem a CBF indicar. Essa história de que o time está buscando parceiros na iniciativa privada ou que irá vender o Naming Rights por uma fortuna é tudo parte de um grande enredo de novela das 8, onde todo mundo sabe o final.  A torcida do Corinthians, 2ª maior do Brasil, não quer nem saber se o dinheiro vem do Papa ou do Osama, quer mesmo um estádio próprio e estão comemorando e santificando o Andrés Sanches, afinal, só chora o leite quem está sem teta. Coincidentemente o time que também comemora seu centenário neste ano, além de ganhar um estádio, caminha para ganhar o campeonato nacional e para isso vem sendo ajudado sucessivamente pela arbitragem em jogos chaves. Há o argumento –erros ocorrem para todos os lados – mas quando ocorre insistentemente para 1 só lado há que se desconfiar, temos o Brasileirão de 2005 como precedente.

Mas o importante de tudo isso é que o povo ta feliz né! Dane-se que tem corrupção, o importante mesmo é que o Brasil será sede da Copa de 2014 e o Timão terá um estádio novo não é mesmo.  


terça-feira, 9 de novembro de 2010

B.O.P.E.

A revista Veja desta semana fala sobre o sucesso do filme Tropa de Elite e do seu personagem principal, Capitão Nascimento, que segundo a publicação é o primeiro Super Herói do cinema brasileiro. Assisti ao filme há umas duas semanas atrás e até esbocei um texto ao seu respeito, que acabei descartando, pois acabei viajando demais e fugi totalmente do tema.
Os críticos e os cineastas brasileiros em geral torcem o nariz para o filme assim como o fazem para outras produções de grande sucesso de público. Isso por dois motivos:
- Os cineastas brasileiros em geral acreditam que os bandidos são vitimas de uma sociedade cruel a preconceituosa que encontram no crime a única forma de dar o troco aos opressores. São heróis de uma legião de pobres marginalizados, como foi Lampião. Alegam que Tropa de Elite é apelativo, repleto de violência barata e previsível e que capitão Nascimento nada mais é que um personagem fascista, reacionário e truculento.
- Em segundo lugar, e talvez o principal motivo, é que o filme é sucesso de bilheteria. Cineastas têm aversão a sucessos de bilheteria. Atrair tanta gente, meros "burgueses assalariados", às salas de cinema, é condição sine qua non para considerar qualquer filme "comercial" e de péssima qualidade. Mas isso era coisa de "cinema hoolywoodiano" e não do marginal cinema nacional, por isso a revolta contra Tropa de Elite.
Na contra-mão do que consideram os critico, o filme foi aclamado com mérito pelo público brasileiro. Na sala que assisti a reação foi unanime, todos sairam satisfeitos com o filme e ao mesmo revoltados com os rumos de nosso país. Ninguém foi ao cinema esperando belas metáforas ou técnicas vanguardistas de filmagem, as pessoas queriam assistir a própria realidade mostrada de modo franco, sem aquela papagaiada de "subjetividade das verdades humanas". Cada um na sua poltrona, que paga impostos compulsoriamente, que teme parar em faróis durante a madrugada, que tem sua rotina de alguma forma afetada pela violência e está cansado de ver policiais envolvidos em crimes, se sentiu na pele do Capitão Nascimento espancando um político bandido ou entrando em desespero ao se deparar com a insolúvel rede de corrupção instaurada em todas as esferas do poder.
O surpreendente é que ao contrário do que imaginam nossos intelectuais, não só a classe média se entusiasmou com o filme, mas também os moradores da periferia, testemunhas reais e oculares da violencia ilustrada no filme. E por quê? Porque são os mais subjulgados por policiais corruptos e por traficantes e os mais assediados em época de eleição.  
Pode-se contestar os método nada ortodoxos de lidar com a criminalidade mostrado no filme, mas as pessoas em geral já estão tão fartas de serem acuadas e de escutarem o mesmo papo dos governantes, que já os consideram como razoáveis. E como ser diferente?
Apenas um ponto que me perturba na matéria da revista Veja - que no filme a todo momento culpa-se o "sistema", quando desse também fazemos parte, a partir do momento que nos beneficiamos da sonegação e até mesmo dos subornos. Ok ... concordo ... é fato que a mudança começa pelas atitudes de cada um, mas me pergunto se a deterioração dos valores do povo brasileiro e conseqüência ou conseqüente de um sistema corrupto, caro e ineficiente.  É o dilema do ovo e da galinha. Quem se originou de quem?  

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dark Age

O Ópio

A Al Qaeda assumiu o ataque a uma igreja católica em Bagdá e afirmou que cristãos são alvos legítimos do grupo e irão matá-los onde puder. Isso para mim é mais uma prova de que religiões agem em total desacordo com o que pregam, pois são ineficazes para propagar o bem, ao invés disso querem monopolizar uma verdade que ninguém de fato possui. Na verdade o que está em disputa é somente o poder, para isso arrebanham fanáticos em volta do mundo, que financiam, lutam e morrem com fé na salvação, quando estão apenas defendendo a influencia de uma instituição em relação à outra. Como a história do mundo é cíclica, só espero que neste momento de tantos avanços, esse fanatismo não nos leve de volva a Dark Age.

 

A Ignorância

Esta rolando uma polêmica do cão as mensagens xenofóbicas que rolaram no Twitter após a vitória da Dilma. Darei meu pitaco. Acho honestamente que o pessoal tem uma idéia muito limitada sobre o mundo. Acho válido se manifestar contra ou a favor de determinados políticos, até mesmo se revoltar contra um resultado de eleição, mas questionar a validade ou o motivo dos votos de determinado setor da sociedade, é de uma ignorância tremenda. Esse tipo de atitude compromete até mesmo a legitimidade de oposicionistas valiosos, que possuem idéias progressistas e acabam tendo sua figura ligada a reclamações tão babacas e pequenas. Eu mesmo votei contra o PT não pelo fato da Bolsa Família e sim por discordar da politização de cargos em estatais e do uso da máquina para continuidade no poder. Agora falar o povo nordestino vendeu seu voto por quinquilharia é desconhecer totalmente a realidade brasileira não conhecer a si próprio, pois cada um age por interesse próprio, não venha me falar que alguém bota o seu na reta pelo bem comum, principalmente em São Paulo. Alguns pontos que vale ressaltar:

1º O Brasil ainda é um país pobre, onde existem regiões miseráveis sem qualquer oportunidade de geração de renda, pois além dos problemas sociais há problemas geográficos, parece batida esse história, mas parece que tem gente que não consegue entender que miséria não é traço genético e nem opção de vida. Um auxílio de R$90,00 para uma família sem possibilidade de renda alguma faz muito mais diferença do que o imposto que a maioria costuma sonegar. Essas pessoas são as que mais precisam de políticas a seu favor e ainda cogitam privá-las do direito de votar? Isso é um absurdo. Se votam pelo Bolsa Família é mais que justo, pois votam por algo que precisam e qualquer um faria o mesmo.  Tem um monte de babaca que vota do corrupto do Maluf somente por viadutos.

2º Reclamar da migração de cidadãos de regiões mais pobres para regiões mais prosperas é tão mesquinho quanto reclamar da areia da praia. Vivemos numa federação e cada um tem o direito de ir, vir, morar ou mudar na hora que bem entender e a coisa mais natural do mundo é alguém procurar um lugar mais próspero para morar. Se há isso no Brasil a culpa não é dos retirantes, mas de séculos de política corrupta. Lembremos que faz pouco tempo que temos eleições diretas, antes disso as eleições eram restritas a alguns grupos. Será que esses grupos também não votavam por interesse próprio?

3º A Dilma foi eleita com votos de cidadãos de todo país, na maioria das classes menos favorecidas, portanto tendo maior proporcionalidade no Norte e Nordeste. Isso é comum a governos populistas. Mas não necessariamente todo nortista votou em Dilma e sulista em Serra. Se assim fosse Serra teria ganhado, uma vez que só São Paulo tem 42 milhões de habitantes.