terça-feira, 9 de novembro de 2010

B.O.P.E.

A revista Veja desta semana fala sobre o sucesso do filme Tropa de Elite e do seu personagem principal, Capitão Nascimento, que segundo a publicação é o primeiro Super Herói do cinema brasileiro. Assisti ao filme há umas duas semanas atrás e até esbocei um texto ao seu respeito, que acabei descartando, pois acabei viajando demais e fugi totalmente do tema.
Os críticos e os cineastas brasileiros em geral torcem o nariz para o filme assim como o fazem para outras produções de grande sucesso de público. Isso por dois motivos:
- Os cineastas brasileiros em geral acreditam que os bandidos são vitimas de uma sociedade cruel a preconceituosa que encontram no crime a única forma de dar o troco aos opressores. São heróis de uma legião de pobres marginalizados, como foi Lampião. Alegam que Tropa de Elite é apelativo, repleto de violência barata e previsível e que capitão Nascimento nada mais é que um personagem fascista, reacionário e truculento.
- Em segundo lugar, e talvez o principal motivo, é que o filme é sucesso de bilheteria. Cineastas têm aversão a sucessos de bilheteria. Atrair tanta gente, meros "burgueses assalariados", às salas de cinema, é condição sine qua non para considerar qualquer filme "comercial" e de péssima qualidade. Mas isso era coisa de "cinema hoolywoodiano" e não do marginal cinema nacional, por isso a revolta contra Tropa de Elite.
Na contra-mão do que consideram os critico, o filme foi aclamado com mérito pelo público brasileiro. Na sala que assisti a reação foi unanime, todos sairam satisfeitos com o filme e ao mesmo revoltados com os rumos de nosso país. Ninguém foi ao cinema esperando belas metáforas ou técnicas vanguardistas de filmagem, as pessoas queriam assistir a própria realidade mostrada de modo franco, sem aquela papagaiada de "subjetividade das verdades humanas". Cada um na sua poltrona, que paga impostos compulsoriamente, que teme parar em faróis durante a madrugada, que tem sua rotina de alguma forma afetada pela violência e está cansado de ver policiais envolvidos em crimes, se sentiu na pele do Capitão Nascimento espancando um político bandido ou entrando em desespero ao se deparar com a insolúvel rede de corrupção instaurada em todas as esferas do poder.
O surpreendente é que ao contrário do que imaginam nossos intelectuais, não só a classe média se entusiasmou com o filme, mas também os moradores da periferia, testemunhas reais e oculares da violencia ilustrada no filme. E por quê? Porque são os mais subjulgados por policiais corruptos e por traficantes e os mais assediados em época de eleição.  
Pode-se contestar os método nada ortodoxos de lidar com a criminalidade mostrado no filme, mas as pessoas em geral já estão tão fartas de serem acuadas e de escutarem o mesmo papo dos governantes, que já os consideram como razoáveis. E como ser diferente?
Apenas um ponto que me perturba na matéria da revista Veja - que no filme a todo momento culpa-se o "sistema", quando desse também fazemos parte, a partir do momento que nos beneficiamos da sonegação e até mesmo dos subornos. Ok ... concordo ... é fato que a mudança começa pelas atitudes de cada um, mas me pergunto se a deterioração dos valores do povo brasileiro e conseqüência ou conseqüente de um sistema corrupto, caro e ineficiente.  É o dilema do ovo e da galinha. Quem se originou de quem?  

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