Antigo Cine Tangará em Sto André- Virou cine pornô e depois igreja
O anúncio do fechamento do Cine Belas Artes tem causado certa comoção e mobilização de órgãos de imprensa e cinéfilos. Ontem mesmo houve uma manifestação na região contra o fechamento do estabelecimento. Esse é um assunto que também me comove, mas um cinema de rua está se fechando, dando lugar a uma igreja, banco, ou coisa que o valha. Notei porem que todas as reportagens têm adotado uma ótica simplista: a da nostalgia. Claro que o caso do Cine Belas Artes desperta tal sentimento, lá você ainda tem a opção de assistir filmes que geralmente não entram no circuito comercial além de se tratar de um cinema de muita história na cidade, talvez por isso o anúncio que HSBC encerraria o patrocínio e por conseqüência o cinema viria fechar, causou tanta repercussão. A verdade é que o cinema até hoje se mantinha, pois era subsidiado pelo Naming Right do banco, do contrário a tendência era ter encerrado suas atividades há tempos, assim como outros tantos cinemas de rua que deixaram de existir em silêncio. Claro que o cinema perdeu o romantismo dos seus tempos áureos, conforme brilhantemente retratado no filme Cine Paradiso, mas não pode se falar que o cinema está em baixa, pelo contrário, as salas instaladas em shoppings estão sempre entupidas em fim de semana. Creio também que não é somente pelo fato de que filmes fora do roteiro comercial não tenha público - há público sim - em uma megalópole como São Paulo há um número considerável de cinéfilos que curtem filmes alternativos. O fato é que uma série de fatores lamentáveis faz com que as pessoas aqui de São Paulo prefiram os entretenimentos indoor.
Eu detesto shoppings e isso é sério. Acho uma atrocidade ter de ir a uma imensa gaiola de concreto para ir a um cinema, lanchonete ou até mesmo fazer compras. Todo o pacote que envolve um sábado no shopping é aterrorizante, começa pelo preço abusivo de estacionamento e da feroz briga por vagas, passando pelas filas nas lanchonetes e no cinema. Lembro que quando eu era criança eu ia ao Cine Vitória em São Caetano do Sul, era muito melhor do que ir ao Cinemark hoje, a sala não era lá essas coisas mais tinha clima de cinema e não de um shopping entupido, e repito – não é saudosismo.
De qualquer maneira isso é para meu gosto, assim como existem milhões de pessoas que amam um shopping center ao redor do mundo. Eu gosto de viver a cidade e o intuito de um shopping é justamente te isolar da cidade e te levar para um território só dele, como um parque temático. O problema é que cidades como São Paulo estão cada dia mais hostis a vida "outdoor" e isso acaba desestimulando ainda mais as pessoas a procurarem lazeres nas ruas. Adoro o centro de São Paulo e gostaria de poder chegar lá de tarde, fazer compras, jantar, pegar um cinema e só voltar para casa à noite de metrô, mas fazer isso é como uma roleta russa. Ainda costumo ir aos centros de São Paulo e Santo André, mas reconheço que está cada vez mais insuportável e acabo não tirando a razão de quem prefere enfrentar as filas de estacionamento em shopping. O Vale do Anhangabaú que acho tão bonito, cheira a mijo e merda humana, além das dezenas de sacos com resto de cola despejados por drogados durante a madrugada. Na Rua Direita, por exemplo, onde existem lojas instaladas em prédios históricos da cidade, você tem que fazer acrobacias para não pisar nos camelôs que estendem suas lonas no chão e vendem DVDs e CDs piratas, além da insuportável música alta emitidas por aquelas giringonças onde eles testam as músicas dos tais CDs. Por todo canto é lixo e chorume, fora o eminente risco de ter sua carteira ou celular furtado. No início da noite as lojas começam fechar suas portas, os camelôs recolherem suas tendas e o clima fica tenso, inúmeros viciados, tal zumbis, começam a circular em busca de mais droga; prostitutas assumem seus postos; e a polícia convive com tudo isso passivamente. No centro de Santro André é mesma coisa, outro dia fiquei surpreso quando descobri inúmeros puteiros próximos a estação de trem, juro que não conhecia aquilo. O local onde ficava o famoso Cine Tangará está pavoroso, abandonado e caindo aos pedaços. O desaparecimento dos cinemas de rua não é resultado apenas do desinteresse da população por cinema, ou de uma simples predileção por shoppings, mas da putrefação de nossas cidades. As pessoas estão se isolando da cidade e vivendo sues lazeres em microcélulas comerciais vedadas a violência e poluição urbana. Entendo que moramos em um país com diversos problemas sociais, mas é inaceitável que aqui o inaceitável seja aceitável pelo poder público.
Então meu caro amigo que está triste com o fechamento do Cine Belas Artes, entendo muito bem sua tristeza, porem não adianta culpar o banco que cancelou o patrocínio, nem mesmo as pessoas por não darem o valor devido a 7ª arte, culpe nossa omissão em relação ao detrimento urbano, pois o que está acontecendo hoje na região da Paulista e Consolação, foi o que já aconteceu a anos no centro da cidade.

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