sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O chato

Não sei se posso ser considerado um chato pleno ou em potencial, mas o fato é que ao passar dos anos venho acumulando implicância a uma série de "coisas", coisas essas que até mesmo participo ou em algum momento participei. Não considero isso uma amargura, creio apenas que a experiência aliada a algum senso crítico tem me revelado a origem de certos comportamentos de massa e o quão babaca eles são. Outro ponto importante é que não tenho barreiras à autocrítica, definitivamente não sou daqueles sujeitos arrogantes a ponto de não admitir que também ajo como um idiota muitas vezes, isso me permite certa empatia com o mais estúpido dos sujeitos, mas isso não impede que eu o deteste. Às vezes acho que Deus realmente se diverte pra valer com o ser humano, por isso que ele já não o fez perfeito, pois assim sendo tem diversão garantida. Ele proveu o homem ao mesmo tempo de uma capacidade intelectual sublime e de instintos primitivos, capaz de fazer com que qualquer gênio aja inconscientemente tal qual um macaco perto de uma fêmea, isso só para citar um exemplo.

Às vezes tento furtar um pouco dessa diversão divina colocando-me como expectador de situações em que eu mesmo estive envolvido, como se eu pagasse o Tape da situação, inserisse em um aparelho reprodutor e a assistisse de fora. O resultado são cenas de uma comédia nonsense. Me divirto muito, muito mesmo, até quando eu sou o protagonista. O problema é que quando me deparo como uma situação explicitamente desse tipo no presente, passo a enxergar todas as pessoas como atores e acabo me abstraindo do contexto, fazendo com que repentinamente eu perca o interesse por toda a conversa. Isso ocorre principalmente quando estou em meio a pessoas com "complexos sistemas de defesa", do tipo "sorriso de livro de auto-ajuda" ou "eu sou um sucesso", daquelas que exercitaram tanto seu auto-amor que acaram se auto-idolatrando. Esse tipo de pessoa está a todo o momento competindo, mesmo em conversas informais na mesa de um bar. Alguns até viram mentirosos compulsivos, do tipo que todo mundo já sabe que é um enganador. Darei um exemplo de um episódio que passei recentemente.

Fui convidado pela agência que presta serviço aqui na empresa para um petit comité - modo sofisticado de chamar pequena confraternização - em comemoração à repaginação do estabelecimento. Pois bem, fui de bom grado, seria de tarde, teria uns quitutes, um espumante, além de o pessoal da agência até ser legal, tirando o fato de que só são por interesse em novos trabalhos. Chegando lá fui muito bem recebido pela anfitriã que logo me serviu uma taça de espumante e uns doces realmente gostosos. Além de mim havia mais umas 3 vendedoras de mídia impressa e 1 vendedor de busdor, logo em seguida chegaram mais 2 vendedores de mídia eletrônica, 1 vendedora de mídia impressa e mais um cliente da agência – uma panificadora. Sendo assim de cliente da agência só tinha eu e mais um, o resto, tirando a dona e a funcionária da agência, eram só vendedores de mídia. Tenho certo bode com vendedores de mídia, pois juntam o "puxasaquismo" de vendedores com a arrogância típica a publicitários. Outro detalhe importante ao enredo da história é que parte dos ali presentes eram mulheres, a idiotice de um homem se potencializa a mil perto de mulheres, principalmente homens casados, pois esses ainda querem provar a si mesmo que ainda são "caçadores". A conversa estava a mais chata possível, vendedores contando vantagens de suas metas alcançadas, cada um que dava depoimento tinha atingido sua meta com mais excelência – "Eu já tinha minha meta batida em novembro" – e assim por diante. Foi quando o imbecil do dono da panificadora decide incluir seu IPhone na conversa... aí começou a dança dos pavões. A partir do IPhone a conversa seguiu o rumo da ostentação. Um dos vendedores, não querendo ficar por baixo, afirmou que nem comprava um celular daqueles, pois ele tinha mania de jogar celulares na parede e seria um desperdício – olha que absurdo – disse que não se importava com o valor e que sua última vítima foi um Blackberry, seria como alguém dizer que só não toma um Blue Lable porque tem bulimia. Do IPhone a conversa rumou para o espumante e foi uma oportunidade para os rapazes que ali estavam explanarem seus conhecimentos sobre vinhos. As moças não estavam entendendo bulhufas, mas sorriam demonstrando simpatia e entusiasmo. Mulheres em geral não gostam de beber, bebem apenas para fazer tipo, porem vendedoras são diferentes, elas não querem jamais se passar por idiotas e opinam em qualquer assunto mesmo sem entender. Juro que nessa hora eu já estava quase surtando, pensei umas três vezes em sair dando berros imitando o Pavarotti ou até mesmo simular o chute do Daniel Sam em alguém, só para completar o enredo nonsense que aquela conversa tinha. Decidi apenas educadamente pedir licença alegando um compromisso e ir embora.

Por alguns minutos ainda no elevador estava ainda entorpecido pelo o ódio, mas depois eu comecei a pensar que essas pessoas não poderiam ser de outro jeito, que isso era resultado de um mundo cada vez mais competitivo avesso a derrotas e todo aquele discurso que já conhecemos. No fundo nada mais é do que um embate entre seres humanos querendo marcar posição dentro do grupo, assim como fazem os macacos, hipopótamos, lobos, etc. Conforme citei no início, consigo compreender os motivos de qualquer atitude idiota, pois eu também ajo como idiota muitas vezes, mas isso não impede minha progressiva aversão a idiotices.

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